Meu primeiro dia de aula

Estava refletindo sobre a inspiração.

Entrei na faculdade completamente crua, influenciada e sem noção do mundo ou do que eu queria fazer, mas achei que poderia fazer coisas boas pelo mundo e por outras pessoas em algumas áreas… então, com um pouquinho de influência optei pelo direito (e sim, quero dizer advocacia mesmo).

Até então não sabia quais eram meus talentos, minhas vontades, minha visão de vida. Tudo isso ficava como segundo, terceiro, último plano.

Então no primeiro dia de aula entra um professor na primeira aula logo após uma pegadinha dos alunos mais velhos, que foi até divertida, parecendo um pouco bêbado, grosseiro. Eu estava até então no meu mundo cor de rosa, me imaginando naqueles filmes, com direito a trilha sonora, nos quais as pessoas fazem justiça para causas verdadeiras e ajudam a criar um mundo melhor, e no meio dos meus devaneios ouço o professor:

– O QUÊ VOCÊS ESTÃO FAZENDO AQUI? QUEM VEIO AQUI PARA SALVAR O MUNDO?

Então alguns alunos, eu entre eles, timidamente levantaram a mão.

– QUEM ESTÁ AQUI PARA FAZER DINHEIRO?

Outros (a maioria) levantaram a mão.

O professor andava com o livro na mão por um tempo que pra mim parecia uma eternidade, todos confusos e tímidos sobre o que viria a seguir após termos apoiado salvar o mundo ou ganhar dinheiro, então, após a pausa dramática, tenho certeza que não foi tão dramática assim, mas essa é a imagem que ficou pra sempre comigo, o professor diz com todo o escárnio:

– DUVIDO QUE ALGUÉM TERMINE A FACULDADE DIZENDO QUE QUER SALVAR O MUNDO. TODOS QUE LEVANTARAM A MÃO VÃO SE JUNTAR AO CORO DOS QUE QUEREM GANHAR DINHEIRO OU VÃO SAIR DO DIREITO.

Após essa frase, eu fiquei tão paralisada que me lembro de ouvir uma ou duas frases e mais nada. Cheguei em casa chorando. Passei dias deprimida. Achei que fosse esquecer disso, mas marcou tão fundo que esqueci as palavras exatas, mal lembro da cara do professor, mas lembro exatamente da sensação que tive naquele momento em que ele com todo escárnio dizia que estávamos lá para ganhar dinheiro.

Os anos passaram, não me lembro de ter tido um único professor que trouxesse alguma inspiração. Ninguém que fizesse crescer o sonho de participar de causas que hoje considero as causas que valem a pena (direitos humanos, animais, causas sociais, ambientais), alguém que abrisse de algum modo o caminho da inspiração, pelo contrário. Só conseguia ver aulas chatas e interesses econômicos ligados à essas questões. Pessoas que pouco se preocupavam de verdade com as causas.

Lembro do segundo ano onde deveríamos fazer uma monografia sobre direitos humanos. Meu tema? Legalização do aborto! Passei o ano tirando zero nas provas (que exigiam que falassemos do nosso tema) e sendo ameaçada que não passaria de ano com o tema. Como falar do tema falando de direitos humanos e numa faculdade católica?

Resumindo a longa história, continuei apoiando o direito a legalização do aborto, fui a última a apresentar o trabalho e acabei ganhando um 10 e tendo meu trabalho enviado para a comissão de direitos humanos em Brasília. Foi mais uma ação que ao invés de me inspirar me mostrou a grande luta de poder. Nunca se tratou de direitos, de olhar para o outro, mas sobre a luta de poder.

Então hoje, alguns muitos anos depois, sempre me pego querendo voltar a advogar para causas animais e ambientais (incluindo como prova uma constelação das causas e o depoimento ou leitura da comunicação entre as espécies) sem ver na lei respaldo do que é verdadeiro, do que aproxima o tema das leis naturais e não das imposições humanas, percebo que a lei humana se distanciou tanto da lei natural e até mesmo de uma Lei energética. Nossas leis (incluo costumes e cultura), muitas vezes, nos obrigam a ferir leis energéticas, mas como a própria lei gera um acordo que também gera uma energia, não importa o que se faça, fere-se algo de qualquer jeito (para costumes e cultura já existe uma diferença nesse caso).

Exemplos? Antigamente os senhores feudais tinham direitos sobre a primeira noite com as mulheres após um casamento. Escravos podiam apanhar e serem vendidos e não dispunham do direito a própria vida. No oriente médio as mulheres são entregues a homens pelas próprias mães para serem estupradas. Animais são confinados e torturados ou mortos em cadeias de produção diariamente para consumo e entretenimento. Terras são delimitadas e o direito de ser um cidadão do mundo é inexistente. Há limites legais para o desmatamento ainda que seja apenas por interesse econômico. Nenhuma das leis ou costumes envolvidos aqui está de acordo com leis naturais ou energéticas.

De alguma forma, mesmo longe do mundo jurídico, acabei achando alguma inspiração para me aproximar dessa lei natural e energética que o mundo jurídico e o sistema ignoram e buscar sair dessa programação do sistema. Saí da minha zona de conforto e fui buscar algo fora dos padrões e descobri que isso faz diferença no mundo. Meu convite aqui é que as pessoas reflitam em como as suas áreas de atuação ferem de algum modo a lei natural ou energética e o que elas podem fazer a respeito. Como mudar um sistema que é programado para ferir o que seria natural e como nos permitimos perpetuar essas ações por não refletir sobre elas. Como continuar se inspirando no mundo e fazer algo bom com essa inspiração. Temos muito mais poder do que pensamos, só precisamos acreditar que cada ação conta e não da pra falar em mundo melhor sem sair da zona de conforto! E se a única solução oferecida pelo sistema é sair do sistema, que comecem as sociedades alternativas…

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