Aprendendo a comunicar

Ontem recebi um texto que falava que até 2050 seria criado um dispositivo que permitiria que os animais se comunicassem. O algoritmo que sugeriu o texto obviamente não compreende o que eu faço em temos de comunicação entre espécies e obviamente se comunica “tão bem” quanto esse dispositivo comunicará.

Em primeiro lugar, os animais se comunicam. Nossa inaptidão para entendê-los não faz da forma de comunicação deles algo mais ineficiente ou menos avançado. Ao que me parece, muito pelo contrário. Os humanos que acreditam ter uma comunicação tão avançada usam-na para manipular, mentir, persuadir e continuam matando uns aos outros e destruindo tudo ao redor por suposta falta de entendimento na compreensão sobre a comunicação.

Quando falamos de comunicação com outras espécies, seja uma planta, um cristal, um animal, não podemos partir do ponto que a comunicação acontece na mesma estrutura de linguagem que a comunicação humana. Aliás, essa é a primeira coisa que os céticos usam para ridicularizar algo sobre a comunicação entre espécies “Se for um cachorro chinês em que língua você vai falar?”. A telepatia e a comunicação com outras espécies não passa pela nossa estrutura de linguagem e na maioria das vezes não tem uma estrutura linear, é uma transmissão diferente que todo ser humano tem capacidade de acessar e ajudaria muito inclusive na comunicação humana e na compreensão do outro.

Voltando ao texto, o autor acreditava que no momento em que a tecnologia fosse implantada as pessoas teriam mais compaixão pelos animais , pois estes conseguiriam se comunicar. Nesse ponto algo me tocou. Nós humanos nos comunicamos com estruturas de linguagem parecidas, as vezes na mesma língua e muitas vezes dentro de um mesmo núcleo e isso não faz com que tenhamos mais compaixão uns pelos outros. Nós não sabemos nos comunicar, não somos criados para transmitir de fato o que queremos, processar a informação recebida e responder de acordo com o sentimento gerado momento. Somos treinados para usar belas expressões, semântica, uso racional e lógico das ideias. Não comunicamos, cuspimos palavras e ideias construídas linearmente e nos orgulhamos da lógica vazia de verdade interna que construímos.

Um cachorro que atendi certa vez disse que o mais difícil no entendimento dos humanos é que nós dizemos algo com palavras, mas no fundo queremos dizer outra coisa.

A natureza fala, podemos evocar a sabedoria dos diferentes reinos e obter mais conhecimento sobre a vida e o mundo que teríamos sentados anos a fio em salas de aula. Certa vez um gato informou que vinha ajudar sua guardiã humana com uma administração circular, uma vez que a forma linear aplicada pelos humanos não era eficiente. A ideia foi tão avançada que até hoje me pergunto como funcionária na prática.

Lembro do dia que assisti o filme A Chegada. Chorei horas a fio de felicidade quando foi mostrada a ideia da escrita circular. O conceito das coisas circulares estava sendo apresentado por alguns animais e minha mente insistia em desenhar um círculo de forma linear. Eu sabia que aquela imagem era um condicionamento meu, mas não conseguia captar o que era transmitido. Quando vi a imagem no filme a mente se abriu para novas possibilidades e entender os conceitos ficou mais fácil. Não eram eles que não se comunicavam, EU que não recebia.

A comunicação não é a tradução de um som, mas a transmissão de todo um conceito. Quantas discussões entre humanos se perdem em semântica? Não comunicamos palavras, mas ideias, sensações, sentimentos, um conjunto a ser expresso que foi aprisionado em palavras, sentenças, parágrafos…

Inventar um dispositivo que traduza um miado, relincho, mugido ou latido é reduzir a comunicação dos animais com significados pobres e incompletos devido a nossa inaptidão de comunicar e se abrir para outros níveis de comunicação.

Não acredito que esse dispositivo crie compaixão. Já está provado que outras espécies são seres senscientes e inteligentes. O que cria compaixão é o desejo de olhar para o outro, se abrir e sair do processo de egoísmo do que estamos acostumados. Os humanos se comunicam e sofrem diariamente e nem por isso a sociedade os integra e sai do comodismo para mudar algo.

E finalmente, não são os animais não humanos que precisam aprender a se comunicar, mas é o animal humano que precisa aprender a comunicação verdadeira, expressar a verdade e aprender a ouvir.

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