Heróis e vilões

Eu soube que engravidaria um mês antes de engravidar. Senti uma energia diferente e tive certeza, por mais que não estivesse dando muito crédito. Minha alimentação estava ótima, muito aquém do que eu gostaria, mas com muitos legumes, frutas, vegetais todos frescos e orgânicos. Nada de transgênicos. Meditava todos os dias e estava tão calma. Não via TV (para deixar claro: por TV entenda-se TV, Netflix, streamings, YouTube, popcorntime, etc). Falava com outros seres, me cuidava energeticamente. Então engravidei. Primeiro pensamento: ah, se minha alimentação estava ótima, agora na gravidez vou melhorar, vou meditar mais, vou ficar mais calma, falar mais com os outros reinos… só que não!

Passei 4 meses a base de ifood porque não suportava lidar com os alimentos (ainda não suporto) até ter a ideia e descobrir lugares para comprar comidas orgânicas congeladas. Se consegui meditar 3 vezes mais do que 2 minutos foi um milagre. Fiquei mais tensa e ansiosa do que sabia que era possível. Netflix virou parte essencial do dia. Após 6 meses estou descobrindo como entender novamente os animais e outros reinos. Enfim, tudo o oposto do que eu projetei que seria.

Quanto mais eu me culpava ou tentava forçar ser melhor ou fazer o que eu fazia no passado pior as coisas ficavam e as projeções foram virando fantasmas prontos a apontar que eu não estava sendo a pessoa que gostaria de ser, principalmente na gravidez.

Me senti horrível até me dar conta que eu, novamente, estava lutando contra mim mesma. Estava querendo me salvar, mas essa parte que estava gerando o conflito não queria ser salva, apenas ouvida e acolhida.

Para quem me conhece sabe que eu gosto de filme “ruim”, heróis, ficção, nada de arte ou grande intelectualidade. Algo a ser acolhido, apesar de eu ter comentários sobre o entretenimento que consumimos, mas é um assunto que vou deixar para um outro dia. Enfim, já sem paciência com o seriado que estava vendo, Agents of SHIELD, me dei conta de um tema que pairou o seriado inteiro: o mocinho acreditando que sabe o que é certo e querendo salvar o outro sem respeitar a sua vontade. Nesse momento, a arrogância do mocinho faz com que em algum nível ele se torne o vilão.

Ao tentar dizer o que era certo e apontar minhas “falhas”, minha parte mocinha estava se tornando a vilã da história. Claro que em algumas coisas eu gostaria de estar fazendo diferente, mas em outras não! Eu queria ser ouvida, acolhida dentro das coisas que eu mesma chamava de falhas. Não queria ser salva, mas vista, assim EU mesma conseguiria mudar aquilo.

Perceber o mocinho se tornando o vilão dentro de mim me fez pensar em como usamos ferramentas de escape para sabermos o que é melhor para os outros e para o mundo. Quantas vezes vestimos a roupa de salvador e determinamos como salvar o outro… No próprio meio espiritual vestimos essa roupa o tempo todo. Não vou dar exemplos, acho que cada um deve procurar seu mocinho-vilão-salvador.

Sim meditar me faz muito bem, a alimentação muda meu humor, estar mais calma me deixa mais feliz, desligar dos eletrônicos me faz dormir melhor, mas não acolher o que está acontecendo e o que está sendo possível e perceber para que cada uma dessas coisas está servindo não me faz bem.

Se eu quero ser a melhor guardiã para o desenvolvimento desse ser incrível que já está aqui, tenho que começar sendo uma boa guardiã para mim mesma. Não importa se são os hormônios, os fatos ou se algo dentro de mim simplesmente quer chamar a atenção, o que importa é que lutar contra isso não vai trazer a solução.

Esse salvador que parece bonzinho, mas no fundo reproduz a voz crítica que não nos ajuda, mas sim paralisa e nos prende num looping, precisa ser reeducado. Como uma criança precisamos do nosso próprio amor para nos desenvolver. Precisamos as vezes de firmeza ou limites, mas precisamos de acolhimento, sermos vistos. Perceba se esse salvador não reproduz a voz crítica que alguém que você jurou nunca reproduzir… Perceba se você não faz com você exatamente o que não gostava que fizessem… Perceba se ao invés de curar você não está apenas paralisando ou sufocando algo que virá com mais força depois…

Projetar o que devemos ser é uma fuga do presente. Abre espaço para esse salvador buscar no passado as ferramentas para ser o próprio vilão. Veja quem você é no presente, no agora e ache seu tutor interno que vai ser um guia para que você mesmo possa se transformar.

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