Violentamente aceitável

Acho que nunca se falou tanto sobre violências cometidas com pessoas, minorias, abusos de todas as formas, mas alguns tipos de violências ainda não temos interesse (como sociedade) em ver, são violências aceitas socialmente.

Comecei a pensar muito sobre violências sutis que praticamos em nosso cotidiano e passei a estudar o assunto pensando na disciplina positiva e percebi como somos violentos no trato diário com as crianças e uns com os outros. Violências e abusos que drenam a energia e são aceitos socialmente com um simples “você tem que crescer para a vida no mundo e ela dói, é melhor que se aprenda a lidar com a dor em casa”. (Frases vindas de uma sociedade muito bem resolvida com suas dores emocionais, nada frustrada, que com toda dor e violência que sofreu sabe muito bem como continuar passando essa dor para educar seres prontos a lidar com suas dores emocionais…). O problema é que não somos apenas violentos em nossos nãos, somos violentos até num carinho, quantas vezes vamos dar oi para uma criança e a linguagem corporal faz ela virar por não querer ser tocada e impomos um beijo mesmo assim? Isso é violento e socialmente normal e no final a sociedade acha que o errado não é o adulto e sim a criança que precisa aprender ser educada (violência dupla, ser obrigada a receber algo que não quer e se obrigar a isso para ser aceita…). Essas essas violências não ficam apenas no trato com as crianças, elas são claras em todas as relações e mais notórias nas relações verticais, sempre que um se julga mais forte, seja com um idoso, animal,alguém diferente… somos violentos e socialmente aceitamos essa violência quando ela é sútil ou disfarçada.

Tocamos crianças achando que por serem crianças podemos tocar como queremos (imagine seu bom humor se vc estiver dormindo e começarem a te tocar, se estiver passeando e estranhos começarem a te pegar ou se estiver em qualquer lugar e até mesmo conhecidos te tocarem sem que você queira…), tocamos animais sem perguntar se eles querem (alguns recebem sua lição após um belo “NHAC”, mas quem sai como vilão? O dono da mão cheia de dedos que não perguntou e foi tocando ou o animal que informou não querer ser tocado?), dizemos “verdades” uns aos outros sem sermos questionados e sem perceber que estamos expressando nosso julgamento da verdade e não a verdade em si e achamos que o outro tem que engolir, nos damos aí direito de opinar, interferir, julgar, criticar… vivemos de forma violenta e achamos normal. Não aprendemos a lidar com nossas emoções e não somos educados a viver num mundo de cooperação aprendendo com nossas virtudes, somos enjaulados em salas de aula e treinados em todas as instâncias (tanto nas escolas como em casa) como nos circos para agirmos com cordialidade, competitividade, respeitando um sistema falido, usando a racionalidade para afastar as emoções e aceitar as pequenas e grandes violências.

Então me comunicando com minha filha, acessamos um lugar de cooperação, de fluidez energética, integração. Um lugar onde a violência não é a regra e percebi algumas coisas básicas e óbvias! Nos violentamos todos os dias!

Comemos comida envenenada, isso sem contar com a origem da comida, inclusive dos vegetais! Respiramos ar poluído Bebemos água sem vida, cheia de químicas e sujeira! Vivemos no meio da poluição visual, auditiva, nossas casas tem produtos nocivos em todos os cantos, inclusive na tinta das paredes e produtos de limpeza, nossos produtos cosméticos nos causam mal, nosso entretenimento é violento (todo ele, perceba as músicas os filmes/novelas e séries… não precisa ter soco e tiro pra ser violento), microondas, antenas, Wi-Fi, 5G… os exemplos são infinitos, mas muitos vão dizer “mas não dá pra fugir da realidade”. E aí eu questiono: qual realidade? Se houver mais leões vivendo em circos não significa que os leões que vivem na natureza livre não estão vivendo a realidade… Temos bordões prontos para esses questionamentos, todos bordões mentais de uma sociedade que não está disposta a se perceber e expressar um “nossa, isso me causa um incômodo, mas não sei como fazer diferente”, bordões de uma sociedade que está presa então está disposta a questionar verdadeiramente e fazer diferente (afinal, da trabalho mudar). Outro bordão largamente usado é: “mas não dá pra viver assim, tem que ser maleável e usar o caminho do meio” (claramente repetido por pessoas que não entendem o que é o caminho do meio. Talvez seja mais fácil perceber o absurdo se essa frase for dita por um viciado em drogas, ou um ladrao…).

Nos vestimos para agradar o outro, vivemos para sermos aceito. Somos adestrados e alimentamos o ciclo da violência. O que fazer com todo sentimento reprimido? O que fazer com toda vontade deixada de lado, com todas as obrigações sociais que não são de fato relevantes? Com todas as violências diárias que nossos seres recebem?

Aprendemos na tenra idade um amor violento. Aprendemos como crianças a sermos humilhadas em público, punidas física e verbalmente, não aprendemos a lidar com nossas emoções. Nos tornamos adultos que perpetuam o caminho sútil da violência no trato diário conosco e com o outro e quando chega algo desafiador entendemos que a única resposta é a violência.

Esse é um assunto que quanto mais estudo e mais me comunico com minha filha, mais inconformismo e desconforto sinto sobre as regras e trato social e meu maior inconformismo reside no fato de junto a ela acessar lugares de realidades diferentes e não saber como manifestar essa realidade como minha realidade nesse planeta.

Acredito que um dos caminhos é começar a tomar consciência e responsabilidade com a violência com o Eu. Começar a perceber a qualidade e presença em cada momento pode fazer nascer a consciência das pequenas violências e abrir espaço para modificação e o primeiro passo é o aprendizado com as emoções e nosso estado de presença. Por exemplo, ao comer um industrializado transgênico colocado no microondas… talvez você não deixe de comer, mas saiba que é um violência com seu ser e assuma isso internamente. Outro exemplo, ao escrever esse texto meu inconformismo com a sociedade atual e algumas dinâmicas violentas que tem acontecido me causam sensações físicas que nesse momento paro, respiro, sinto essas emoções se expressando fisicamente e respiro em cada sensação, trazendo a presença para emoções que se reprimidas vão achar sua válvula de escape em alguma reação violenta em alguma inteiração social frustrante.

Gostaria de me apresentar para minha filha sem essas violências, vivermos num mundo sem essas pequenas e grandes violências e olhando pra ela nesse momento e sem respostas para grandes ações, só consigo pensar que posso dar pequenos passos e torcer para eles serem grandes o suficiente para nos guiarem para uma realidade diferente!

Término com a Prece do Belo Caminho (prece pronunciada todas as manhãs pelos Índios Navajos dos E.U.A., antes de saírem para sua jornada diária para que esta seja abençoada!)

Hoje sairei a caminhar
Hoje todo mal há de me abandonar
Serei tal como fui antes 

Terei uma brisa fresca a percorrer-me o corpo
Terei um corpo leve
Serei feliz para sempre
Nada há de me impedir

Caminho com a beleza à minha frente
Caminho com a beleza atrás de mim
Caminho com a beleza abaixo de mim
Caminho com a beleza acima de mim
Caminho com a beleza ao meu redor

Belas hão de ser minhas palavras
Belas hão de ser minhas palavras
Belas hão de ser minhas palavras

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