O peso

Quando decidi ajustar minhas ações com meu discurso sobre redes sociais senti o grande apego que sentia pelas redes, mas estava determinada a aceitar que “the truth is out there” (a verdade está lá fora) e a vida também. Então comecei o processo cancelando Facebook, cancelando uma das contas do Instagram e começando a fechar a outra, cancelando LinkedIn…

Enfim, nesse experimento a única coisa certa é que é possível voltar ao mundo virtual, mas não é possível voltar a ter momentos reais fora das redes, então o máximo que eu perco é um nome virtual.

Passei uma semana praticamente sem acessar nada. Uma semana com menos stress, uma semana com qualidade diferente de sono, uma semana com dois livros lidos, uma semana sem pensar em bater uma foto para postar, mas sim uma foto apenas para mim, uma semana sem todo o peso que as redes trazem.

Já ouvi também que passei essa semana sem conexão… verdade??? A ilusão da conexão com as pessoas através de likes ou e um comentário raso… As conexões verdadeiras continuaram, a ilusão da conexão se foi. Não existe tempo para o outro ou não existe o querer?(apesar de nesse momento não existir tempo de fato…) Talvez não haja assunto, então sem um story-post-like não tenho como manter certas relações. No entanto sei que algumas relações transcendem e existirão mesmo sem story-post-like.

Todos esses aspectos criam uma ilusão, uma ansiedade, um peso, mas esse não é o maior peso. O maior peso das redes que eu nem me dava conta é o peso do que era gerado com o próprio conteúdo… Todas as viagens que não fiz, todas as comidas que não preparei, os cursos que perdi, os lugares que não frequentei, as roupas que não vesti, o exercício que não me deixou sarada em 15min por dia, os idiomas que não aprendi, os artesanatos que não me dediquei, as declarações que não fiz/recebi o peso de todas as coisas que parecem incríveis na vida de todo mundo e que não acontecem na minha. Minha vida é incrível como ela é! Eu amo ser mãe e poder vivenciar a maternidade da forma mais instintiva que consigo. Amo meus gatos, mesmo querendo trucida-los ocasionalmente. Amo esse processo de me tornar mais sensível ao que o meu ser quer viver. Amo estar cada vez mais consciente de mim mesma. Talvez eu sonhasse com algumas horas a mais de sono, massagem, louças limpas, algumas coisas resolvidas… sonho com algumas viagens e até alguma dedicação a coisas artesanais, tenho algumas vontades, mas a maioria pode ser deixada de lado por um momento para eu curtir a vida de agora, coisa que parece impossível com as redes.

Quinze minutos olhando a respiração da bebezuca é muito mais importante agora do que 15 minutos pulando para tentar entrar em forma. Ver todo mundo criando receitas astronômicas quando eu consigo fazer algo que precisa no máximo de duas panelas pode ser frustrante, mas descobri que minhas duas panelas tem criado receitinhas saborosas (brinco que minha cozinha é intuitiva, faço tudo e depois cada um tem que intuir como combinar o que tem). As redes criam uma ansiedade do que você deveria ter feito. Cada dia conectada traz a mesma sensação do pós natal, quando você descobre que a interminável lista de promessas do ano novo passado não foi cumprida e você tem uma interminável lista de promessas para o próximo ano. Ao invés de olhar para a vida e simplesmente dizer eu fiz porque quis ou não fiz e não quis, estar nas redes vai jogando e gerando gatilhos e pequenos desconfortos que ficam ali no limbo e o mecanismo usado para suprir está nos likes, então um conteúdo é criado e provavelmente vai fazer o mesmo efeito em alguém que vai gerar outro conteúdo e assim por diante. O efeito de relaxamento de um like passa rápido e também é minimizado com a ansiedade de obtê-lo. (Em geral quando digo isso vem a critica: “eu não posto por likes…”, mas isso é assunto para outro texto).

Enfim… comecei minha saída das redes virtuais por uma orientação espiritual e também um puxão de orelha do tipo “walk your talk” (faça o que fala), mas estou percebendo dinâmicas muito mais ocultas conforme me desligo do que eu percebia. Eu sabia de toda a manipulação e controle das redes, foquei em entender a falta de privacidade e o controle, só nunca olhei para os efeitos dos conteúdos em mim e nas pessoas e, curiosamente, apenas ao deixar por alguns dias comecei a ter vários insights e perceber o que fica mais difícil perceber quando se está dentro.

A vida acontece aqui fora! E é aqui fora que quero focar! Ainda não estou totalmente desligada e talvez nunca fique, mas quero experimentar tirar todos os pesos que peguei e que não fazem sentido.

O mundo q eu quero só existe aqui fora e os pesos que criam essa ansiedade virtual eu escolhi deixar nesse momento, sabendo que agora é agora e outro momento é outro momento.

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