Diga: Ooommm

Há muitos anos, numa galáxia muito distante… ok, me empolguei com a ideia de um fundo preto e um letreiro amarelo deitado…
Mas há mtos anos, nos primeiros retiros e cursos que participei, sempre aparecia alguém com uma câmera e perguntavam se tudo bem tirar foto. Não, pra mim não estava tudo bem, mas na época eu não queria ser a chata e tinha vergonha ou medo de dizer, então com um sorriso amarelo eu dizia que tudo bem. Não entendia muita coisa nem sobre o que eu sentia e nem sobre a parte energética, só sabia que sentia um desconforto que eu abafava.


O tempo passou, e fui trabalhando o autoconhecimento, fazendo cursos, me empoderando e entendendo mais sobre energia.


Eu entendo que as pessoas precisam (ou acham que precisam… tudo é uma ilusão) de material de divulgação, já que temos um sistema que impõe isso, mas quando eu participo de um retiro/curso/aula, quero poder viajar, liberar o que eu preciso, soltar tudo sem ter medo de ter um celular ou câmera registrando algo.


Conforme eu fui entendendo o meu incômodo, percebi que enquanto tinha alguém registrando o momento e vendendo o meu processo (ok, essa é a parte que gera conflito, se eu estou usando a imagem de qualquer coisa como marketing, é uma especie de venda), primeiro a energia daquele momento é captada e pode ser lida por qualquer pessoa(ok, alguns não sabem como fazer isso, mas é possível), segundo, estou acabando com a privacidade das pessoas e de momentos íntimos, acredito que devemos nos perguntar, ainda que alguém dê consentimento, é mesmo necessário expor esses momentos? Talvez alguém tenha dito que sim, quando queria dizer não, talvez alguém de forma não consciente trave no processo para não se expor tanto, ou talvez tenhamos o efeito oposto, um ego querendo aparecer e também não conscientemente (ou consciente mesmo) posando.


O mundo da espiritualidade hoje é tomado pelas mesmas ferramentas capitalistas de marketing e ao invés de curtir o presente momento, está se perdendo na necessidade de registrar o momento gratilux fazendo poses ou mudras completamente vazios, já que a pose é para a foto e não tem nada a ver com a conexão do momento.


As vezes ouço: ah mas eu não vou publicar! Ok, mas também não deveria registrar. Não é só a publicar que gera o efeito travar-posar, saber que está sendo observado e fotografado acaba com a espontaneidade dos processos e de toda forma, a energia daquele momento fica registrada.

Eu passei a ser a chata dos cursos. “Alguém não quer aparecer…?” Nem deixo terminar a frase meu braço já está levantado complementando “não quero aparecer nas fotos, mesmo nas fotos que não serão publicadas”. Isso quando as pessoas perguntam, porque na maioria das vezes elas se sentem no direito de fotografar sem pedir. Veja como hoje é fácil. Um celular na mão e todo mundo acha que pode fotografar tudo. Veja as postagens de redes sociais… quantas não são as fotos e vídeos de pessoas que nem sabem que estão sendo fotografadas?! (E nem vou entrar no tema fotografar criança alheia…)

Bom, mas nos cursos on-line não tem isso! Tem!!!! Um monte de gente dando printscreen na tela e publicando ou falando e fotografando. Ao menos temos o recurso desligar câmera nesse caso!

Conforme os equipamentos foram se tornando mais acessíveis, mais e mais foi se perdendo a noção de privacidade, do direito do outro resguardar o momento para ele, do direito de viver plenamente algo sem alguém fotografar! É quase como fazer sexo tirando selfies… ahh esqueci, tem gente que faz isso!

Enfim, vejo contas e mais contas que as pessoas querem mostrar o corpo alegando uma suposta liberdade do eu, de expressar, de que o corpo e a nudez são naturais, mas não vejo nenhuma dessas pessoas mostrando sua naturalidade com barriguinha, com olheira, só vejo corpos perfeitos que muitas vezes nada tem a ver com o texto. Opção das pessoas, claro! Minha crítica não é sobre a divulgação do próprio corpo, mas a falta de consciência para distinguir se de fato existe uma naturalidade ou são outras as necessidades, mas de toda forma, é o corpo dela na conta dela. Mas a quantidade de contas divulgando processos não é pequena. São fotos de atendimentos, de pessoas liberando dores, de exercícios , meditações… fotos feitas pelos facilitadores, mas também pelos participantes.

De alguma forma não basta participar de um curso, é preciso mostrar que está lá. Assim como ninguém mais vai ao restaurante sem mostrar o prato que comeu, ou ao show sem ficar filmando. De verdade, para mim é igual ao letreiro de Hollywood, as pessoas batem foto composes e sorrisos lindos para mostrar q lá estiveram, mas 90% delas só quer sair de lá o mais rápido possível por achar a coisa mais idiota um letreirinho na montanha.

Estamos vivendo um momento que mostrar que está fazendo algo virou mais importante do que a experiência. Vender a “espiritualidade” vale mais do que o processo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s