Trapped

Já teve uma época que eu era fã de tecnologia, queria trabalhar no Google, achava incrível a ideia de termos um gadget ou chip que conectasse e fizesse tudo… Faz algum tempo que essa insanidade não é mais o meu sonho, mas meu grande pesadelo (que está passo a passo se concretizando). Entre tantas outras razões, a questão da privacidade e da manipulação estão incomodando muito. Comecei a me incomodar com acontecimentos estranhos , que fizeram muitos dizerem que eu estava maluca e se concretizou lendo as políticas de privacidade e vendo alguns documentários.

Tenho ensaiado sair das redes e desconectar de apps, projeto que já comecei deletando um monte de contas e redes. Fiz uma pesquisa rápida sobre quem já leu as tais políticas de privacidade de aplicativos e redes. O que chamou a atenção não foi o resultado da pesquisa, mas dois comentários que recebi que tem uma raiz parcialmente comum.

O que adianta ler a política de privacidade se ainda que você não concorde vai ter que baixar o app e aceitar da mesma forma? Melhor nem saber!

Não da pra sair do virtual. Como você vai ser vista, vai interagir, vai promover algo sobre você? Você vai morrer sem as redes!

As ferramentas tornaram-se armas. O que é gritante desses comentários é perceber a prisão que aceitamos em nome de algumas facilidades e que hoje nos tornam reféns.

Eu sempre tive muita resistência com telefone. Sabe aquela experiências que alguém fala algo e você não sabe responder na hora e passa o dia remoendo “podia ter falado tal coisa/dessa forma”?! Então, telefonemas corporificam meus medos infantis (ok, terapia explica), mas descobri que essa é uma questão para muita gente! Muita gente mesmo! Então qualquer aplicativo de mensagens, até o famigerado SMS ganhou adeptos, os demais serviços de mensagem então… não sei como as pessoas se comunicavam em outros momentos, pois atualmente 90% da minha comunicação acontece apenas por mensagens. Talvez isso tenha um lado interessante, mas também um lado totalmente sem noção, pois eu não te ligo para contar uma piada idiota ou repassar correntes, ou te coloco num call sem sua permissão, já nas mensagens tenho que pedir diariamente para que as pessoas se comportem e não mandarem tais coisas ou propagandas ou me adicionarem a grupos etc.

Já a internet foi se reduzindo aos grandes nomes como google e redes sociais. Inicialmente havia programas para reunir um resumo do que estava acontecendo nos seus blogs e sites preferidos, mas cada um na sua, então o modelo de redes sociais tomou conta. O Instagram e outras redes viraram um catálogo (pessoal e dos negócios). Da curtição de ver e mostrar seus momentos e foto dos/para outros ao vício de ver e ser visto foi um like. A espontaneidade se perdeu, e arrumar a foto para o melhor clique com o melhor filtro também. Tudo tem regra para não flopar. No entanto as redes também reuniram tudo num ponto único. Se eu quero entrar em contato com um negócio, não preciso mais acessar o site, agora tem tudo nas redes, tem até em excesso, pois também tem a regra de ter que postar todo dia, mas as pessoas e negócios raramente tem tanto conteúdo, e aí começam a “criar conteúdo” que pra mim nada mais é do que cuspir qualquer coisa para ser visto – vamos falar sei que a maioria dos posts é sobre nada. Inicialmente quem grita mais alto, posteriormente uma maratona para vencer os algoritmos. Mas tudo está lá.

Já pelo próprio padrão humano, o vício e a falta de noção do espaço alheio, essas ferramentas se transformaram em armas. O funcionamento dos programas elaboraram ainda mais as armas sem dar tempo para pensarmos. E aí vem a política de invasão, sim, porque o limite da privacidade passou longe, o que essas empresas fazem é invasão e monitoramento, chamar de privacidade só pode ser piada.

Em palavras bonitas, que devem ter gerado algum bom contrato com ótimas cifras de quem criou, a política de “privacidade” , é difícil de entender, mas está lá, que você é monitorado e manipulado. Qual o normal? Não aceitar! Mas aí vem o assustador e a verdadeira prisão criada: as pessoas acreditam que não tem escapatória, que não podem sair dessas contas e até eu me peguei nessa ilusão de precisar estar conectada, isso porque tenho uma conta pequena.

São muitas as facilidades desses instrumentos, mas ele se mostraram grandes prisões. Poucas pessoas tem noção sobre como atuam, quase todas que sabem disso são contra, mas ninguém aceita sair.

Onde se reuniam as pessoas para olhar fotos da viagem de alguém, onde se encontravam para um sarau ou fazer uma palestra ou um bate-papo, ou como comunicávamos sobre nossos trabalhos e falávamos que existíamos? Será que não há alternativas para isso?

Essa produção custosa de conteúdos será que de fato reflete sua marca e seus valores? Será que essa necessidade de postar “oi mundo acordei”, “fui dormir”, “soltei um pum” não está gritando sua necessidade de atenção humana direcionada? Será que esses programas não estão mostrando que todos ficamos rasos, mas no fundo todos queremos profundidade?

Apesar de abominar as políticas dos apps de mensagem de fato eles me ajudam já que me liberaram da necessidade de responder imediatamente. Coloco no Instagram os textos que vão para o meu blog. Vez ou outra alguém manda um comentário que algum texto gerou alguma reflexão e isso eu acho bem legal, mas é aqui que eu gostaria de estar postando? De verdade, meu sonho é estar num lugar bacana e de repente bater papo sobre algum tema. Abrir espaço para colocações, falar da minha percepção energética, ouvir outras percepções. Contato humano! Sem fotos para postar. Só o bom contato focado, mas até para isso as pessoas diziam que os aplicativos são necessários para divulgar.

Um exemplo que gosto muito é da TV por assinatura. Ela ganhou todo mundo com o papo de não ter propaganda. Em determinado momento eles colocaram propagandas, mas as pessoas continuaram pagando. Sempre me perguntei, se as pessoas ficaram tão incomodadas com isso, se todos tivessem saído em pouco tempo haveria uma revolução desse sistema. O que eu quero dizer com esse exemplo, que qualquer desses aplicativos e redes dependem do usuário para existir! Em primeiro lugar, deveríamos ter mais posicionamento e mais poder juntos!

Precisamos reunir força, não apenas para colocarmos limites no que aceitamos ou não, mas para termos ideia de alternativas a esse sistema que se impõe.

Estamos carentes como sociedade de profundidade e contatos verdadeiros. Chega de estarmos com o outro com um celular na mão. Chega de on-line! Sugestões???

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