Condicionamento

Essa não é uma história sobre conspiração, mas sim sobre o que é normalizado socialmente e cria condicionamentos explícitos ou ocultos que passam sem perceber se não prestarmos atenção.

Toda mensagem consumida nos afeta direta ou indiretamente. Nosso cérebro é uma máquina incrível, pega informações e preenche lacunas. Toda a informação que vamos fornecendo desde a infância vai fazendo parte de uma vasta biblioteca que não nos damos conta e somado aos acontecimentos, ensinamentos e crenças teremos um vasto sistema de informações que irão pegar acontecimentos preencher lacunas e moldar como enxergamos o mundo e a vida é nossas reações também.

Minha filha recebeu um livro sobre um gatinho, ela amor por ter gatinhos, infelizmente não li o livro antes dela colocar as mãozinhas…

A história é sobre um artista de rua e seu gato. O gatinho sai para passear durante uma performance na qual o artista é roubado e quando vai perseguir o ladrao cai e se machuca e vai para o hospital. O gatinho retorna e fica a espera triste, até que outro gatinho o leva para a casa da família que o acolhe. Eles tem filhotes, que vão morar com outras famílias facilmente menos um, que tem a cara do pai, um gato de rua, e que mia muito. O gatinho nunca esqueceu seu amigo artista então sai para procurá-lo e fica muito feliz em achar, mas fica triste pq cai deixar a companhia e a casa cheia de conforto, mas sei filho miador diz que quer ficar com o artista então esta resolvido e todos são felizes.

Primeiro problema que foi gritante para mim, quando os filhotes são dados os gatos pais ficam orgulhosos segundo o livro. Bom, até que a idade certa chegue, para os animais é super traumático e separar das crias e dos pais, mas até entendo que seja um assunto pouco conhecido. O problema é que o filhote miador ninguém queria, então já começamos a mostrar uma programação de que os pais estavam felizes por seus filhos terem bom comportamento, se encaixarem na sociedade e assim conseguem uma família e quem não se comporta como o desejado socialmente não é desejado.

“Ahh Camila, você esta exagerando, é só um livro!” Esse é o ponto, talvez nem o autor tenha consciência, nem ninguém toma consciência de qual é a mensagem passada e assim a mensagem vai se perpetuando e permeando a sociedade!

Outro ponto é que quando o gatinho reencontra seu antigo guardião, mas escolhe ficar com a nova família é mencionado o conforto da nova família em termos de posses e a companheira felina. Quando se menciona o conforto da nova família, já vem uma ideia de que eram mais abastados do que o artista de rua e o dinheiro foi um fator relevante, mas o problema não parou aí, o filhote miador fica com o artista de rua feliz, seria lindo se não houvesse a insinuação que o gato optou por uma família mais abastada e que ao filhote indesejado por seu comportamento que não se encaixa cabe a pobreza.

Ainda o autor faz questão de chamar o artista, que tem um nome, de artista de rua o livro inteiro. No início do livro já foi descrito que era um artista de rua, não era necessário não tratá-lo pelo nome.

Parece muito bobo, mas sem olhar para as coisas criticamente, esse seria um livro fofinho infantil, mas com o mínimo de crítica já se nota o preconceito e programação do autor. Não vejo culpa no autor, mas é um problema social! Informamos as crianças o tempo todo que elas devem se enquadrar, serem boazinhas se não não são desejada, não serão amadas, não ganharam presente, serão levadas por qualquer lenda. O condicionamento acontece nas mínimas interações. Somos adultos que não tem a mínima noção do que dizer para crianças porque também fomos formatados e repetimos com ela tudo aquilo que nos causou dor e perda de identidade real.

Percebi que não existe um livro aqui em casa que exista uma figura legal sobre a mãe. Todos os papéis bacanas são de pais. Qualquer ensinamento é de professor na escola. Os até de uma avó. Comecei a ver como as mães sempre aparecem sem condições de serem legais ou ajudarem seus filhos. A noção de que a escola educa e os pais são legais fica no subconsciente enquanto às mães cabe o papel secundário. Quando me dei conta disso, tentei lembrar dos meus livros. Quantos livros, gibis, desenhos haviam mães legais? Em quantos as mães forneciam informações interessantes? Nenhum! As mães apareciam com bolos, limpando ou brigando, em raríssimos casos apareciam secundariamente, mas as professoras nesse caso tomavam o papel de ensinar algo valioso.

Eu me tornei extremamente crítica com os conteúdos que ofereço para minha filha e percebi que pensar cansa. Mas percebi também que quantos processos e movimentos de Autoconhecimento e consciência são necessários e as vezes não entendemos como algumas coisas parecem continuar no background. Consumimos sem nos colocar em estado crítico, consumimos conteúdos passivamente. Se não vemos problema em oferecer para crianças, também não nos colocamos em posição de analisar e criticar o que nós mesmos consumimos. Esse olhar não critico fica alimentando constantemente esse background, mas enquanto não olharmos para essas informações, teremos um subconsciente funcionando sempre da mesma forma e por mais movimentos que façamos, haverá sempre algo escondido preenchendo as lacunas de forma não adequada.

A primeira vez que ouvi que éramos moldados pela mídia e também pelo conteúdo de livros, filmes, músicas, achei estranho e não aceitei. “As tais verdade indigestas”… Mas quando passei a observar os conteúdos, percebi a grande verdade. Os filmes, histórias, dão uma série de parâmetros para nosso subconsciente que passa a moldar nossa visão de mundo, realidade sem percebermos.

Todo esse molde faz com que tenhamos reações programadas. Adoro filme e de heróis. Imagine o quanto o subconsciente não esta impregnado com a ideia do mocinho que salva o mundo?! Eu já tenho uma tendência a querer fazer e ajudar, imagine o quanto esse comportamento não foi acentuado ou até mesmo formado pela ideia do salvador que não apenas é aceito, mas é altamente adorado?

Quantas vezes você imaginou parte da sua vida como uma cena de filme tocando determinado tipo de música? As emoções moldadas, a expectativa dos acontecimentos moldados a visão do mundo moldada… então acontece algo e nos frustramos, pq a situação não cabe no molde do subconsciente ou ainda pq a sua reação não condiz com o que acontece internamente.

Todo conteúdo consumido tem um papel muito grande no molde da nossa personalidade. Ter consciência disso é começar a reconhecer esses moldes inconscientes e começar a ter a responsabilidade por fechar conteúdos e passar a descobrir o que seria viver do seu jeito!

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